À conversa com a terapeuta da fala Marta Marreiros

by Maria Pessanha

A Marta é licenciada em Terapia da Fala e pós-graduada em motricidade orofacial e vem falar-nos sobre várias preocupações dos pais relativamente à fala e ao uso da chupeta. É apaixonada pelo mundo dos mais pequenos, talvez, por acompanhar, desde que se lembra, a mãe durante o seu trabalho com grávidas, mães, pais e bebés. Recentemente terminou o curso de conselheira do aleitamento materno. 

“Tenho a sorte de todos os dias poder trabalhar com crianças e com o mundo que as rodeia. São estas pequenas grandes pessoas que me ajudam a crescer pessoal e profissionalmente, e que me permitem ensinar e aprender tantas coisas maravilhosas todos os dias.

 

Começando pela fala, o que podemos fazer para estimular a mesma, desde o nascimento? 

Mais do que estimular a fala, é importante desde cedo estimular a comunicação. A fala é simplesmente o ato motor de transmitir uma mensagem através de um conjunto de sons que dão origem a palavras e frases, sendo uma possível forma de comunicação. 

É na barriga da mãe que os bebés começam a comunicar, reagindo a sons e vozes, através do seu movimento. O bebé, quando nasce, sem sequer ter adquirido conhecimento de palavras e conceitos, já é capaz de comunicar e transmitir necessidades através do choro, sorriso, sugar, arrotar, espirrar, palrar. Progressivamente e paralelamente ao seu crescimento vai desenvolvendo conhecimento do mundo que o rodeia, vai compreender o que lhe dizem e finalmente expressar-se através da fala. 

Sugestões para estimular a bebé e a criança desde o nascimento até à fala: 

 Observar e escutar o bebé
 Utilizar uma linguagem simples de fácil compreensão
 Variar, exagerar as expressões faciais e melodia da fala (p.e.: abra os olhos, faça caretas e diferentes sons –beijar, soprar, sons dos animais)
 Aproveitar todos os momentos que o bebé/criança está disponível para comunicar, brincar ou conversar
 Sorrir quando o bebé sorri para si
 Palrar com o bebé, esperando que ele acabe e depois retribuir
 Dar nome aos objetos do dia-a-dia durante a rotina (p.e.: tomar banho, mudar a fralda, vestir, comer, partes do corpo) 
 Cantar para o bebé/criança 
 Brincar ao ‘’faz de conta’’ (p.e.: dar de comer aos bonecos; dar banho aos bonecos; brincar com os carrinhos) 
 Contar e repetir pequenas histórias:
• Se a criança já for mais crescida pode ir fazendo pequenas perguntas ao longo da história ou pedir à criança ajuda para contar a história
 Quando a criança já fala: 
• Dar o modelo correto e exagerar na expressividade e articulação do som que a criança não produziu (p.e.: boua-boLa)
• Incentivar as produções de palavras/ frases através de expressões positivas ‘’Vamos tentar os dois’’, ‘’Experimenta’’em vez de utilizar o ‘’não’’ (p.e.: ‘’não disseste bem’’; ‘’não é assim’’)


Quando começa a ser preocupante um bebé não falar? 

Fazer comparações entre crianças é muito comum: ‘’Com dois anos e meio o irmão já dizia tudo’’. Primeiramente é preciso não esquecer de olhar para a criança como um todo. É importante percebermos e respeitarmos o tempo, o ritmo e a personalidade de cada criança. 

Tal como já referi anteriormente, quanto mais a criança compreender mais fácil vai ser expressar-se. 

As primeiras palavras ocorrem entre os 10-15 meses e são palavras do contexto familiar, relacionadas com a experiência da própria criança. Entre os 18-24 combina duas palavras para fazer uma frase ’’ já tá’’, ‘’tá aqui’’, ‘’popó pai.’’ Entre os 3 e os 4 anos é esperado, apesar de ainda poder não produzir todos os sons da fala, um discurso percetível dentro e fora do contexto familiar.  

É importante estar alerta quando no intervalo entre os 18-24, a criança ainda não começou a produzir palavras, mostra regressão no número de palavras produzidas ou deixou de evoluir. 

Nesta altura será necessário realizarmos um levantamento de informações com o intuito de perceber o que está a impedir a criança de progredir. Questões ambientais (ambiente pouco estimulante, por exemplo frequente exposição a televisão ou tablet e pouca interação com pares), hereditárias (casos semelhantes na família) e/ou condições clínicas (alterações auditivas, por exemplo otites médias de repetição) podem influenciar o desenvolvimento da linguagem e fala. 


Que exercícios podemos fazer para bebés que aos 2 anos e meio não falem ou pronunciem apenas algumas palavras? 

Quando as crianças não falam ou produzem poucas palavras recorrem a estratégias como o gesto, apontar, expressões faciais e corporais para se fazerem entender. 

Quando uma criança aponta para um objeto que está fora do seu alcance, por exemplo um carro, o adulto pode repetir a palavra de forma exagerada, fazer o som do carro (brrr) e caracterizar o objeto (O carro é grande, é azul, anda muito rápido). 

Para além disso, é importante dar opções, mostrando os objetos, de forma a incentivar a comunicação: ‘’queres o carro ou a boneca?’’. 

As estratégias de estimulação desde o nascimento (referidas na pergunta 1) podem também ser possíveis sugestões para ajudar a estimular a  comunicação, linguagem e fala da criança. 


Quando devemos contactar um terapeuta da fala

Tal como o saúde infantil, o desenvolvimento motor e o desenvolvimento da comunicação, linguagem e fala não deve ser desvalorizado, uma vez que dificuldades a estes níveis poderão prejudicar o desenvolvimento emocional, pessoal, de relações com os pares e aprendizagens escolares.

Existem sinais de alerta que podem ser observados desde o nascimento, por exemplo no caso de bébés prematuros poderá existir a necessidade de ajudarmos no treino da sucção e dos reflexos orais, com o intuito de tornar aquele bebé autónomo na alimentação. Com isto pretendo transmitir que não nos devemos preocupar apenas quando a criança não fala, antes de falar ela precisa de comunicar, se o bebé aos 12-18 meses compreende poucas palavras, não aponta, não olha quando o chamam ou não imita sons, estes poderão ser alguns sinais de alerta. 

Uma avaliação e intervenção (seja ela direta ou indireta) atempadas é fundamental para evitar outras dificuldades futuras. 

Neste sentido é importante estar atento: 

 Não responde quando a chama?
 Não faz contacto visual?
 Tem 2 anos e não fala? 
 Só comunica por gestos? 
 Não entende o que lhe dizem?
 Não diz um ou mais sons? 
 Não interage com outras crianças?
 Tem mais de 4 anos e gagueja?
 Respira pela boca? Baba-se? Ressona a dormir?
 Escreve com muitos erros?
 Lê devagar e tem dificuldades em compreender o que lê?
 Grita muito e fica rouco com frequência? 
 Tem dificuldade em sugar, mastigar ou engolir? 
 É esquisito ou não reage bem a novos alimentos? 

 

O chamado “sopinha de massa” é comum e desaparece, ou é motivo de preocupação logo desde o início?

A realidade é que a maior parte dos encaminhamentos realizados para terapia da fala estão relacionados com alterações na articulação: ‘’o meu filho diz boua em vez de bola’’, ‘’o meu filho diz Saia em vez de Sara’’, ‘’o meu filho diz pato em vez de prato’’, ‘’o meu filho diz paiaço em vez de palhaço’’ ou então é ‘’ele mete a língua para a frente quando fala, é sopinha de massa’’. 

As dificuldades em produzir alguns sons poderão estra relacionadas com dificuldades em discriminar e organizar os sons da fala (alterações fonológicas) ou dificuldades na produção motora dos sons da fala (alterações fonéticas). 

Crianças ‘’sopinhas de massa’’ apresentam habitualmente dificuldades na produção dos sons ‘’s’’, ‘’z’’, ‘’ch’’, e/ou ‘’j’’, distorcendo-os colocando a língua para a frente ou lateralmente. Estas alterações relacionam-se diretamente com dificuldades orgânicas ou funcionais nos órgãos da fala: lábios com pouca força, língua numa posição baixa e com pouca força, alterações na oclusão dentária (p.e: mordida aberta) e/ou um palato duro (céu da boca) alto. A mordida aberta relaciona-se muitas vezes com o uso prolongado de chupeta, dedo, tetinas ou respirar pela boca. 

Para além das alterações da fala, é muito comum nas crianças ‘’sopinha de massa’’ a mastigação, a deglutição e a respiração (p.e.: respiração oral) estarem afetadas, encontrando-se adaptadas às alterações da boca da criança. 

Após a retirada da chupeta, dedo ou tetinas é importante estar atento ao modo como a criança respira e à forma como a criança fala com o intuito de se perceber existem sinais que levem à necessidade de uma avaliação em terapia da fala. Uma intervenção atempada é fundamental para a minimizar limitações futuras ao nível da aprendizagem, sucesso escolar, comunicação, participação social e pessoal.


A chupeta pode ser prejudicial na fala? 

O uso de chupeta, assim como a idade a partir da qual deve ser retirada continua a ser um tema controverso. 

Os hábitos de sucção não nutritiva, chupeta e sucção digital, estão interligados com a satisfação afetiva, conforto e segurança da criança.

O uso de chupetas/ sucção digital, biberão de forma prolongada poderão ser considerados nocivos e comprometer crescimento craniofacial em termos ósseos e musculares, alterar a forma das arcadas dentárias, o posicionamento da língua, o contacto labial e, consequentemente, prejudicar as funções de fala, mastigação, deglutição e respiração. O grau de alterações funcionais provocadas pelos hábitos orais está diretamente relacionada com a intensidade, frequência e duração da sua utilização.


Qual a idade mais indicada para retirar a chupeta? 

Convencer uma criança a deixar de utilizar a chupeta ou biberão ou chuchar no dedo nem sempre é fácil e pode tornar-se uma verdadeira batalha. De facto, estamos a querer acabar com um/a amigo/a, algo que a criança gosta e a acalma. 

A idade da retirada destes hábitos é um assunto controverso, sendo geralmente referidos os 2/3 anos. Efetivamente, quanto mais cedo ocorrer a eliminação deste tipo de hábitos maior a probabilidade de corrigir ou atenuar as alterações,  principalmente se ocorrer ainda durante a fase de dentição decídua. No entanto é preciso não esquecer de olhar para a criança como um todo e tendo em conta que estamos a querer acabar com algo que gosta e acalma, por exemplo se tentarmos fazê-lo em simultâneo com o desfralde ou até na altura em que tem um irmão/ã poderá não ser o momento oportuno.


Alguma técnica que ajude os pais nessa altura? 

Primeiro será fundamental analisar bem a altura em que vai iniciar a retirada. É importante, evitar retirar quando estão a acontecer outras mudanças, tais como: desfralde, mudança de rotinas, mudar de quarto, cirurgias, entre outros. 

Aproveite oportunidades em que note alguma redução/desinteresse pontual pela chupeta/biberão. 

É fundamental envolver a criança no processo. Ser imaginativo e ter ideias que o permitam entrar no mundo da fantasia da criança é meio caminho andado. Para isso, converse com a criança, combinem que vão deixar a chupeta na árvore das chupetas (existe uma na Quinta Pedagógica dos Olivais), oferecer a chupeta/ biberão ao pai natal, coelho da páscoa, à fada das chupetas, a uma personagem que a criança goste, ou até oferecer a um bebé de um familiar ou amigo.

Se a criança tiver alguns momentos de reação negativa, tente acalmá-la, abrace-a e transmita-lhe conforto. A chupeta não substitui o carinho dos cuidadores.

Poderão ver com mais pormenor as estratégias que sugeri no artigo ‘’Tirar a chupeta: porquê e como fazê-lo ‘’sem dramas’’? publicado recentemente aqui.


Os bebés que chucham no dedo… é pior do que a chupeta? Algum truque para resolver?

A sucção é muitas vezes um sinal do bebé e da criança para demonstrar alguma necessidade. Quando o bebé nasce um dos sinais de fome é chuchar as mãos, dedos ou outro objeto que entra em contacto com a boca. 

Todos os hábitos de sucção não nutritiva quando usados de forma prolongada poder-se-ão tornar prejudiciais ao desenvolvimentos da musculatura orofacial e, consequentemente, das suas funções. É importante lembrar que os músculos e estruturas utilizadas quando a criança realiza sucção, são os mesmo que irá utilizar para falar, mastigar, deglutir e respirar. 

O hábito de sucção digital (chuchar no dedo), comparativamente à chupeta, pode ser mais difícil de eliminar, pelo facto de não conseguirmos fazer com que o dedo desapareça…. Quanto às estratégias para eliminar este hábito, o primeiro passo será sempre conversar com a criança. É, também, importante valorizar os períodos em que não está com o dedo na boca. 

É relevante estar consciente que o que resulta com uma criança poderá não resultar com outra. 

Caso aconteça em meninas, uma ida à manicure pode ser motivadora.. Há alguns casos em que pode ser necessária a colocação por parte do médico dentista de um aparelho que impeça o hábito.

 

É costume dizer-se que quando uma criança anda tarde fala mais tarde ou vice versa, tem fundamento? 

Não existe evidência científica que comprove que tal aconteça. Quando falamos de uma criança que não apresenta desafios clínicos ao seu desenvolvimento, é expectável que o desenvolvimento psicomotor e o desenvolvimento da linguagem e fala ocorram paralelamente. No entanto, podem ocorrer retrocessos ou menos evolução numa área quando outra se encontra em franco desenvolvimento (p.e.: quando uma criança está a começar a dizer as primeiras palavras e aprende a andar pode, temporariamente, abrandar a sua evolução ao nível da linguagem ou mesmo não mostrar interesse pela produção de palavras).Naturalmente, é importante termos novamente em conta que cada um tem o seu ritmo e as suas aptidões. 

Existem crianças que começam a dar os primeiros passos e a falar ao mesmo tempo, outras começam a falar primeiro e outras a andar primeiro. As aquisições poderão depender do ambiente e dos estímulos a que foi exposta, da personalidade e do interesse da criança por uma das habilidades. 

A mastigação dos alimentos ajuda na fala? Ou seja, bebés que se habituem a comer alimentos que precisem de ser mastigados podem desenvolver a fala mais cedo? 

Começando pelo início, nos primeiros 6 meses de vida o leite materno exclusivo contém todos os nutrientes e água necessários que o bebé necessita. A amamentação promove a respiração nasal, a oclusão normal e o crescimento facial.

A introdução alimentar é uma grande preocupação para os pais. O momento da alimentação deve ser um momento calmo, de experiências positivas, de comunicação e partilha de toda a família. 

Nem todas as crianças estão preparadas para iniciar a alimentação complementar ao mesmo tempo, sendo fundamental não forçar, respeitar e acreditar no bebé. Entre os cincos meses e meio e os nove meses os bebés apresentam sinais de prontidão neurológica que indica que estão preparados para iniciar a alimentaçãocomplementar. Entre os seis e os dez meses os bebés conseguem fazer uma mastigação vertical, no entanto estes movimentos exigem aprendizagem para se tornarem eficientes e eficazes, sendo necessário tempo, mostrar como se faz e dar oportunidade para a criança aprender. 

A introdução alimentar deve ser feita de forma gradual, respeitando os sinais do bebé e sempre que possível em adição ao leite materno, que tem benefícios de ser prolongado até aos dois anos ou mais.  

A abordagem ou a forma como vai ser introduzida a alimentação complementar deve ser uma decisão da criança e da família. É preciso observar a criança, a expressão facial e corporal, com o intuito de compreendermos sinais agrado ou desagrado. Por exemplo, há crianças que não aceitam a sopa, passando logo para os alimentos sólidos, por outro lado existem crianças que temos de iniciar primeiro a comida passada, gradualmente introduzir alimentos esmagados e, posteriormente,os sólidos. 

Todo o processo, desde a sucção à mastigação funciona como uma ‘’ginástica’’ para os músculos orofaciais, que, por sua vez, são os mesmos que utilizamos para falar.  Assim, uma criança que tem uma alimentação variada, em termos de texturas, consistências, sabores, cheirose temperaturas, que a permita mastigar e engolir satisfatoriamente, será uma condição favorável à evolução harmoniosa da fala. Crianças com uma alimentação passada de forma prolongada, poderão ter dificuldades na aceitação de novas texturas e consistências, bem como influenciar a força e mobilidade dos músculos orofaciais e,consequentemente, a precisão articulatória. 

Por fim, a criança deve fazer parte integrante e ter o papel ativo e participativo na sua alimentação. A exploração dos alimentos é uma excelente atividade para desenvolver todos os sentidos e a sua integração (visão – ver os alimentos; tato – tocar nos alimentos; olfato – cheirar os alimentos com as mãos; paladar – diferentes sabores, e; audição – ouvir os diferentes sons que os alimentos fazem durante a mastigação;). 

 

Para finalizar pais que precisem de ajuda onde podem encontrá-la?

 Fale Connosco Saúde Personalizada
 Centro de Desenvolvimento Passo a Passo 
 Fisiocare

marta.terapeutadafala@gmail.com

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