Entre Porto e Lisboa

by Maria Pessanha

A nossa vida é assim e sempre foi. Dívida entre duas cidades.

Quando namorávamos era difícil. Passar toda a fase da paixão à distância. Só nos víamos aos fins de semana e vivíamos na incerteza do futuro. Eu não queria deixar a minha cidade, ele não queria nem podia deixar a dele. Quando vimos que este amor era forte o suficiente para vencer tudo resolvemos casar e eu disse-lhe: não sei se algum dia vou conseguir deixar o Porto. E ele respondeu: nós vamos conseguir fazer tudo à nossa maneira.

Alugámos uma casa no Porto e já tínhamos outra no Estoril. O combinado era, ele vinha à quarta-feira à noite para o Porto e ficava até domingo. Segunda, terça e quarta estava em Lisboa a trabalhar. Quando ele não pudesse vir por causa de campeonatos ou outras coisas eu ia para baixo. E assim fizemos. Correu super bem, e confesso que acho mesmo que as saudades são boas para o casamento.

Depois engravidei. E aí toda a gente dizia que a nossa vida não podia continuar assim e que não ia dar, bla bla bla… Com alguns medos e inseguranças (aumentadas ainda pelas hormonas no auge) pensava muito no assunto. Como é que eu ia ficar sozinha com um bebé recém nascido? Como é que eu ia conseguir fazer tudo sozinha?

A verdade é que as mães são super mulheres. Conseguem tudo. Dou tanto mas tanto valor às mães! Conseguem aguentar sempre mais um bocadinho. O Martim nasceu em 31 de Julho e o David esteve um mês inteiro em casa. Juntos aprendemos tudo e eu tornei-me numa mãe mais confiante. Sabia que ia ser capaz. O Martim era um bebé encomendado para mim. Digo sempre que Deus me ajudou muito. Deu-me um bebé tranquilo, que adorava dormir, que adormecia sozinho, que mamava lindamente e em 10 minutos, que nunca teve cólicas. era tudo tão bom! Quando o Martim fez dois meses o David foi para o campeonato do mundo. 15 dias fora. Já tudo estava em piloto automático e era mais fácil mas lembro-me que o que mais me custou foi não ter companhia durante a noite. Não poder falar com ninguém. Não contar com a ajuda de ninguém. Durante o dia tinha os meus pais que davam muito apoio.

A primeira vez que fomos passar uma temporada a Lisboa o Martim tinha 20 dias. E eu sofri com toda a história que as pessoas gostam de lembrar que vai mudar de ambiente e vai estranhar e etc. Tretas. O bebé precisa é da mãe e ponto. Lá fomos de malas e bagagens e tudo aquilo que um recém nascido precisa para 15 dias (podem imaginar o estado do carro).

A partir daí vimos que era fácil. E passámos a fazê-lo com frequência. Estávamos 2 semanas cá, 2 semanas lá. Tudo isto com um bebé atrás. Duas casas, dois quartos de bebé, dois berços, brinquedos em duplicado…tudo a dobrar. As viagens corriam bem, quase sempre de noite que era para ele ir sempre a dormir. Mas não me esqueço de uma vez que fui com ele com 8 meses… foi a gritar todo o caminho… não sei porquê. Eu sozinha, a querer acalma-lo e a conduzir. Não é fácil mas a realidade é que tudo se faz. Basta querer. E as crianças habituam-se a tudo. Ele percebe que tem duas casas. Percebe que os amigos são diferentes, a família é diferente. E com isto tornou-se numa criança super desenrascada. Dorme em qualquer casa. Fica bem em todo o lado, adormece sozinho. É a realidade e a vida que conhece. No entanto, continuo a levar com as teorias que não é bom para ele, e que não tem estabilidade…

Nos primeiros dois anos de vida dele fomos os melhores clientes da CP, da Via Verde e da Ryanair. E habituámo-nos. Agora faço uma mala em 10 minutos, para mim e para ele. Percebi muita coisa. Por exemplo, que para viajar de comboio levo sempre o carrinho dele e reservo com antecedência os lugares de uma pessoa para ele ir ao meu lado. Percebi que podemos levar tudo nos aviões (sopas e comidas e outros líquidos), que é sempre melhor fazer as viagens de carro nas horas das sestas, entre muitas outras coisas!

Aos dois anos entrou para o infantário e não passamos a não passar temporadas tão grandes, mas mesmo assim continuamos a ir muitas vezes! Claro que depois de estar comigo em casa alguns dias o primeiro dia na escola custa sempre a despedida, mas no dia a seguir já passou e entra de novo na rotina. É estilo de vida que não dá para qualquer pessoa, é preciso ser-se descomplicada e muitas vezes tapar os ouvidos a todas as teorias que não é bom para a criança etc etc. No fundo se houver amor, felicidade e tempo para a criança tudo se faz.

Em setembro mais uma mudança. O palco principal vai passar a ser em Lisbao e o secundário onde vimos passar temporadas o Porto. Por isso para quem constantemente pergunta afinal onde é que eu vivo, aqui fica a resposta.

<3

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